Em memória de Carol
- camila gabrielle siring beckeer
- 10 de mar. de 2025
- 6 min de leitura
Uma Amizade que o Tempo Não Apaga
Hoje, decidi compartilhar algo muito pessoal, algo que carrego comigo há anos e que, finalmente, estou aprendendo a processar de uma forma mais saudável. Fazem 9 anos desde que perdi Carol, e ao longo desse tempo, passei por uma jornada de luto, dor e autodescoberta. Hoje, sinto que é o momento de liberar essa dor de uma maneira mais leve. Escrever sobre tudo o que vivenciei é uma forma de honrar a memória dela e o impacto que teve na minha vida.
Estou tratando esse processo com terapia, que tem sido uma grande aliada na minha cura. Sei que o luto não é algo que simplesmente passa, mas algo que aprendemos a carregar de uma forma mais suave com o tempo. Falar sobre Carol, relembrar os momentos que tivemos e as lições que ela me deixou, é uma maneira de continuar vivendo com mais gratidão e paz.
Nos conhecemos através do curso de Serviço Jurídico que eu fazia à noite. Tínhamos amigos em comum, mas ainda não conversávamos muito. Meu namorado na época era amigo do namorado dela, e ambos estudavam à noite também. Foi nesse contexto que nos aproximamos e percebi que estávamos passando por situações parecidas. Meu ex estava distante, frio, me evitava, enquanto o dela a traía, a manipulava e a ameaçava fisicamente. Ela carregava esse medo e não conseguia contar para ninguém, e eu, como amiga, apenas estive ao lado dela, respeitando seu silêncio.
Sempre sofri com apego emocional, e posso dizer que o término com ele foi um dos mais dolorosos da minha vida até aquele momento. Ele simplesmente sumia e voltava como se nada tivesse acontecido, até que pediu um tempo. Ele foi minha primeira vez, e sabemos como isso marca a vida de uma garota. Mas nao o culpo, os dois eram confusos e já o perdoei! Carol, por sua vez, também estava em um relacionamento que a machucava profundamente. Nos apoiávamos uma na outra, compartilhávamos nossas dores e tentávamos encontrar conforto na companhia uma da outra.
Ela foi uma melhor amiga. Nunca tive uma amizade que se identificasse tanto comigo em tão pouco tempo. Adorávamos Supernatural, e ela me chamava de "irmã Winchester". Quando eu a via nos corredores da escola, antes mesmo de nos falarmos, sentia algo diferente nela. Havia um olhar angelical, uma conexão profunda, como se nossas almas já se conhecessem de outras vidas. E quando nos tornamos amigas, tudo fez sentido—era como se já tivéssemos sido parte uma da outra antes mesmo de nos encontrarmos nessa vida.
Fizemos muitos planos juntas. Um deles era ir ao Rock in Roça, um evento que sonhávamos em curtir lado a lado. Falávamos sobre isso animadas, como se já estivéssemos lá, vivendo aquele momento. E mesmo nos dias difíceis, em que a vida parecia um peso para ambas, esses planos nos davam um pouquinho de esperança.
Houve um momento na escola que nunca saiu da minha mente. Um dia, ela me procurou chorando. Estava visivelmente abalada, precisando de apoio. Eu vi a dor nos olhos dela, mas travei. Eu queria abraçá-la, queria segurá-la forte e dizer que ela não estava sozinha, mas eu sempre tive bloqueios em tomar iniciativa com carinho físico. Então, eu apenas fiquei ali, sem reação. Me arrependo tanto. Eu deveria ter demonstrado mais, deveria ter dado aquele abraço apertado que minha alma gritava para dar. Eu sabia que ela precisava, mas eu não consegui. E isso me persegue até hoje.
Naquela sexta-feira, eu ia sair com a turma do curso e a chamei para ir junto. No início, ela recusou, estava deprimida em casa. Mas insisti, e ela se animou. Saímos, nos divertimos, e tiramos nossa única foto juntas. Ela me apresentou um amigo dela, tentando me ajudar a esquecer o ex, porque, como ela mesma dizia, queria me ver feliz. No fim da noite, já era tarde, por volta das 22h, perguntei como voltaria para casa, pois não queria que fosse sozinha.
Foi quando ela insistiu em me acompanhar até o morro onde eu morava. Era um longo caminho a pé, e eu me preocupei por ela ter que voltar sozinha depois. Mas ela fez questão. Parecia que estava se despedindo. Não conversamos muito durante o trajeto, mas foram palavras simples, mas carregadas de um significado que, na época, eu não compreendi. Quando chegamos ao pé do morro, ela me abraçou forte, de um jeito que nunca tinha feito antes. Um abraço apertado, longo, carregado de sentimento. E eu nunca poderia imaginar que seria a última vez.
No sábado, viajei para o interior e fiquei sem sinal. No domingo à noite, recebi uma mensagem de um colega perguntando se eu soube dela. Meu coração gelou. Foi assim que descobri que, depois de uma discussão com o ex-namorado, ele a acusou de traí-lo com o amigo que nos apresentou. Ele a perseguiu, foi até sua casa e, enquanto brigava com a mãe dela, Carol não aguentou, teve crise de pânico e foi até a sacada…
Quando recebi a notícia, meu mundo caiu. Liguei para a única pessoa que pensei que poderia me acolher e fui surpreendida com certa frieza: meu ex. Depois disso, tudo virou um borrão de dor—o velório, os dias de chuva, o vazio. Me culpei por muito tempo. Poderia ter sido mais calorosa, poderia ter convidado ela para ir para o interior comigo naquele fim de semana, poderia ter dito o quanto sentia uma conexão profunda com ela… Mas só pude fazer isso depois que ela se foi.
Por isso, nunca deixem de demonstrar o que sentem por alguém. A vida é muito linda, e seja qual for a fase que você estiver passando, nunca faça besteira. Sempre procure ajuda. Por mais que, na adolescência, pareça que o mundo está contra você, ele não está. Às vezes, seus pais apenas se preocupam com você. Não perca tempo com pessoas abusivas, escolha sempre o amor-próprio. E, acima de tudo, nunca se esqueça de que a sua vida vale muito.
Hoje, ao refletir sobre tudo, percebo que, muitas vezes, Carol e eu falávamos sobre a vontade de "morrer", mas não de forma séria. Era uma maneira de desabafar, de tentar aliviar a dor que carregávamos. Eu não via como algo real, como um pedido de socorro, pois achávamos que era apenas uma fase, uma forma de compartilhar o peso das emoções. Mas olhando para trás, vejo que eram sinais. Eu deveria ter prestado mais atenção ao que ela realmente estava sentindo. A vida, às vezes, nos dá pistas que não sabemos interpretar até que seja tarde demais.
Por isso, escrevo isso, para que, se você estiver lendo e alguém próximo a você compartilhar sentimentos como esses, preste atenção. Não deixe de perguntar, de escutar, de oferecer apoio. Não trate essas palavras como apenas desabafos. Às vezes, um simples gesto pode fazer toda a diferença.
Hoje, entendo que algumas almas se cruzam por razões que nem sempre conseguimos compreender de imediato. Carol foi um anjo na minha vida, e sua presença segue viva em minhas memórias. Escrevo isso para que nunca me esqueça do quanto ela foi especial, e também para lembrar a todos: nunca deixem de dizer o que sentem. Nunca deixem de demonstrar amor. A vida é incerta, mas o carinho que oferecemos pode ser a última luz que alguém precisa.
Carol me deixou lições que carrego comigo todos os dias. Uma delas, a mais importante, foi a frase dela: "Quero que você seja feliz com alguém que te ame de verdade."
Essas palavras ficaram gravadas em meu coração, pois, apesar de toda a dor e sofrimento que ela passou, ela ainda se preocupava com a minha felicidade. Isso me fez refletir profundamente sobre o que realmente importa em um relacionamento: o amor verdadeiro, que respeita e cuida, e nunca a falsidade ou as expectativas impostas pelos outros.
Outra lição valiosa que ela me ensinou foi nunca se humilhar por ninguém. Não importa o quanto alguém tente te fazer acreditar que você não é suficiente, nunca se diminua para agradar ou se submeter. Sua autoestima e seu valor próprio devem sempre vir em primeiro lugar. E, acima de tudo, a importância de priorizar a nossa saúde mental. Seja buscando ajuda profissional ou encontrando apoio em sua fé, não devemos deixar nossa mente se perder no caos. Buscar ajuda não é sinal de fraqueza, mas sim de força e coragem.
Hoje, ao olhar para minha vida, me sinto imensamente grata. Grata por estar viva a cada dia, por ter superado as dificuldades, por ter aprendido com cada experiência que passou. Cada dor, cada queda, cada momento de luta me trouxe até onde estou agora, mais forte e mais consciente de quem sou. E, graças a tudo isso, pude encontrar alguém que realmente me valoriza e me ama pelo que sou. A felicidade que Carol desejou para mim agora se tornou realidade, e tudo o que passei me preparou para viver a vida com mais leveza e gratidão.
Carol, onde quer que você esteja, saiba que sua amizade e seu legado vivem em mim. E para quem lê isso, lembre-se: nunca se submeta a menos do que você merece. Priorize seu bem-estar, e nunca perca a esperança. A vida, com todos os seus altos e baixos, sempre tem algo de maravilhoso esperando por você.



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